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Uma missão, dois pés e alguma chuva

Começo hoje algo que já tinha na cabeça há algum tempo, o “dois pés”, ou como originalmente lhe quis chamar, two feet. Não que tenha nada contra os títulos na minha língua materna, muito pelo contrario, até porque, o original caiu por terra, mas em boa verdade e na altura era o que achava melhor, mas também ao que ao meu ouvido melhor me soava. 

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O “dois pés” é isso mesmo, os seres e as paisagens que existem nos primeiros 60 centímetros a contar do solo. um patamar onde quase tudo o que o compõem, não está logo à vista, onde a paisagem é complexa e quase caótica. Aí, pequenos seres passam as suas vidas, e interagem com outros. Insectos, pequenos mamíferos, répteis e anfíbios, mas também cogumelos e flores envoltos em atmosferas que nem sempre são límpidas e claras.   

Sair de casa ainda de noite para ir fotografar tem sido, ao longo dos anos, o meu momento de escape, de abstração se é que lhe podemos assim chamar. Aí dou importância ao estar só e ouvir o que vou vendo, andar por entre a floresta sempre foi uma experiência intrusiva para mim, mas também pode ser um outro qualquer habitat onde me consigo, sei lá porque razão, afastar das questões do dia a dia.      

Depois de algum tempo a idealizar e planificar, saio finalmente com o propósito de “bater terreno” mas também de fotografar. Estamos no fim de outubro e a seca está já há algum tempo a fazer mossa nos ecossistemas, está tudo seco e triste, espécies que já deveriam estar no auge da sua floração só agora e muito timidamente a iniciaram. Fico perto de casa, numa zona que tão bem conheço, a Mata da Machada, é aqui que tem inicio o “dois pés”. 

Abordo dois espaços distintos, um seco e outro nem tanto. Um primeiro dominado por tons acinzentados de um pasto de gramíneas já há muito seco. Aqui, e no meio desta desilusão, encontro algo de belo, libélulas, algumas ainda por aqui voam. A manhã já vai avançada e passo para uma zona mais fechada, a luz penetra com bastantes obstáculos neste canto da mata, o único local que ainda consegue manter alguma humidade no solo e onde teimosamente um fio de água tem marcado a sua existência, sombras, reflexos, mas no fim apenas consigo ver uma única flor no meio do verde, tímida e bonita no seu contexto.  

O dois pés, começa lenta mas também sem pressas….. 

Nuno Cabrita

Projecto Realces2pés